Artigo de David Pilling do "Financial Times" - CHINA X USA
Os americanos, silenciosos na questão dos direitos humanos, podem estar se vendendo barato.
Os EUA não devem levar a China tão a sério.
David Pilling - 31/07/2009
Os EUA, silenciosos na questão dos direitos humanos e calados sobre o yuan, podem estar se vendendo barato
Que diferença faz um "e". O Diálogo Econômico Estratégico EUA-China (SED, na sigla em inglês), um encontro bilateral centrado em temas econômicos, realizado duas vezes ao ano, transformou-se sob o presidente Barack Obama no mais amplo Diálogo Econômico e Estratégico (S&ED, na sigla em inglês).
Para os que têm propensão ao refinamento gramatical, o acréscimo de uma conjunção transforma a palavra "estratégica", de adjetivo que descreve o diálogo econômico, em um adjetivo-maleta, que comporta qualquer coisa que Hillary Clinton vier a desejar.
O resultado da rivalidade interdepartamental dos EUA é que o Departamento de Estado de Hillary Clinton se une ao Departamento do Tesouro de Tim Geithner no centro da conversação com Pequim. Isso não é algo ruim. Ela ampliou a agenda, daquilo que Hank Paulson, antecessor de Geithner, havia concebido originalmente em 2006 como um quase fórum econômico. Agora que o Departamento de Estado se intrometeu, mudança climática, Coreia do Norte e qualquer outro tema de relevância global ou bilateral se juntou ao déficit dos EUA, à reforma do setor financeiro e ao yuan como assuntos potenciais para discussão.
A ampliação da agenda de discussões, cuja mais recente rodada foi encerrada em Washington na terça-feira, faz sentido. As relações sino-americanas estão evoluindo rapidamente. A política de Obama para a China se baseia nas fundações assentadas por seu antecessor. Para um presidente que prometeu mudança, uma área de constância com a Casa Branca de George W. Bush tem sido a postura em relação à China. Esta foi uma das poucas coisas que, segundo se avalia, seu antecessor teria feito bem. Ao contrário de Bush, ou de Bill Clinton antes dele, o presidente Obama não precisou recuar de uma postura de hostilidade inicial nutrida contra a China para uma posição mais complacente.
Isto se deve em parte à sua convicção de que é bom estender a mão. Se ele pode falar com Teerã ou Pyongyang, certamente pode manter diálogo amistoso com Pequim. Isso também se deve ao fato de que teve pouca escolha. A crise econômica fez o equilíbrio do poder pender na direção da China. Os EUA estão se sentindo menos confiantes a respeito dos seus fundamentos econômicos e menos capazes do que antes de repreender Pequim sobre a revalorização ou as delícias da liberalização, especialmente porque tantos dos seus próprios bancos, seguradoras e montadoras passaram ao controle do Estado.
Muito pelo contrário, é Pequim, cujas autoridades agora se gabam de não ter absolutamente nada a aprender com a Grande Gastança, a que desfruta a vantagem. O controle financeiro que a China aparentemente detém sobre os EUA foi amplamente destacado. Pequim ficou propensa a passar um sermão nos EUA sobre a necessidade de proteger seus US$ 2 trilhões em reservas, cuja maioria está estacionada em dólares dos EUA.
É plenamente apropriado que Washington confira a devida atenção à China, a mais importante potência emergente desde a própria América. Mas há também um risco de levar a China demasiado a sério. Na tentativa de compensar o desleixo do passado, as coisas podem pender demasiado para o outro lado. Com toda a euforia em torno do G-2 - o eixo sino-EUA que, segundo algumas avaliações precipitadas, é o único fórum global relevante - vale a pena fazer uma pausa para examinar os fatos.
Para começar, o controle financeiro que a China exerce sobre os EUA não é tão rígido como muitos avaliam. Longe de ser um sinal de força, o acúmulo de vastas reservas cambiais por parte da China é o efeito colateral de um modelo econômico baseado demasiadamente nas exportações. O enorme superávit da balança comercial é consequência de um yuan subvalorizado, que permitiu que outros consumissem mercadorias chinesas à custa do próprio povo chinês.
Pequim não pode sonhar em reduzir as suas posições nos títulos do Tesouro dos EUA sem desencadear o próprio colapso do dólar que alega temer. Tampouco convencem seus apelos estridentes para que os EUA fechem os seus dois déficits, que inevitavelmente envolveriam a compra de menos produtos chineses. Em vez de expor a superioridade do modelo dirigido pelo Estado da China, a crise financeira global desnudou o abraço comprometedor no qual EUA e China estão envolvidos.
Os comentaristas também confundem algumas vezes o progresso veloz e provável emergência da China como superpotência com a realidade do dia de hoje. A China ainda é um país relativamente pobre. Apesar de todas as suas ambições militares, está a décadas de distância de ser um páreo para os EUA. Em 2005, de acordo com o Instituto para a Pesquisa da Paz Internacional de Estocolmo, a China respondeu por apenas 4% dos gastos militares globais, ligeiramente menos que do Reino Unido e França, e a um porta-aviões de distância dos EUA, com 46%. É verdade, os EUA podem ter sido humilhados no Iraque e no Afeganistão. Mas a China nem chegou a treinar para projetar o seu poder sobre países como a Coreia do Norte, que passou na ponta dos pés para a condição de país nuclear bem debaixo do seu nariz.
A China é mais frágil do que sugere seu tom cada vez mais estridente. Sua economia foi mantida em atividade acelerada por concessões de crédito bancário compulsório que ainda poderão ricochetear na forma de bolhas de preços de ativos ou uma enxurrada de créditos de difícil liquidação. O controle do Partido Comunista é sólido, mas quebradiço. Considerando-se a opção de projetar a autoridade da China sobre o cenário mundial no encontro de cúpula do G-8 deste mês na Itália, ou de lidar com o crescente conflito étnico em Xinjiang, Hu Jintao, o presidente da China, optou por se apressar para casa.
Nada disso indica que os EUA estão errados em envolver a China nos níveis mais elevados e mais profundos. O surgimento da China como grande potência não exige nada menos do que isso. Os EUA, porém, silenciosos na questão dos direitos humanos e calados sobre o yuan, podem estar se vendendo barato. A China será uma enorme força a ser enfrentada. Mas ela ainda não chegou a esse ponto.
David Pilling é colunista do "Financial Times".

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