HYMAN MINSKY
De repente, um momento de provação para o capitalismo
Cyro Andrade, de São Paulo
31/07/2009
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Marisa Cauduro / Valor
Belluzzo: "Há a percepção de que a economia capitalista se move em torno de um mercado complexo e a ação pública é redutora da complexidade"
É regra essencial do capitalismo: sem risco não há recompensa. Mas pode haver momentos em que ninguém quer correr riscos. É quando os mercados param. É o capitalismo em transe. É um "Momento Minsky". Nesse instante, os preços dos ativos, inflados por especulação levada a extremos de risco, até então abrigada numa bolha que parecia não conhecer limites de expansão, desabam, tornando imperiosa a desalavancagem. É a hora do pânico. Tempos de ganhos fáceis, que pareciam estabelecidos em absoluta perenidade, ficam para trás.
Hyman Philip Minsky explica essa transição cíclica da bonança para o desastre com sua Hipótese da Instabilidade Financeira (HIF), constituída por estas proposições principais, listadas pelo economista André Luís Cabral de Lourenço em artigo que escreveu em 2005 ("O pensamento de Hyman Minsky: Alterações de percurso e atualidade"): (1) uma economia capitalista que possui um sistema financeiro sofisticado, complexo e em contínua evolução alterna períodos de comportamento estável com períodos turbulentos/caóticos: (2) esses comportamentos são endógenos à economia capitalista, pois decorrem da busca de interesses próprios pelos agentes e podem ser gerados mesmo a partir de situações de estabilidade; (3) os períodos turbulentos/caóticos podem assumir a forma de inflações interativas, bolhas especulativas ou deflações de débitos inter-relacionadas; (4) à medida que essas turbulências se estabelecem, vão adquirindo movimento próprio, que, porém, tenderá a ser revertido (por restrições colocadas por instituições, por políticas que afetem a estrutura institucional ou mesmo por autoorganização dos mercados); (5) surgem, assim, condições propícias à emergência de um novo regime de estabilidade; (6) é provável que esse novo regime se caracterize por baixo nível de atividade econômica, mas a busca do interesse próprio pelos agentes acabará por gerar um novo ciclo expansivo, acompanhado de nova onda especulativa; (7) com o passar do tempo, novos regimes de expansões incoerentes e contrações desastrosas se sucederiam.
Minsky se orientava, no dizer de Lourenço, por "um princípio organizador, uma visão pré-analítica", que fazia a ponte de sua identificação com a essência do pensamento de Keynes. Para Minsky, "a economia de Wall Street" - correspondente às forças financeiras mostradas por Keynes em interação com a produção e o consumo para determinar o produto, o emprego e os preços - explicaria tudo, inclusive a instabilidade do sistema capitalista.
Bloomberg
McCulley, da Pimco, acha que o "Momento Minsky" aconteceu em agosto de 2007, mas, como Cabral de Lourenço, também vê possíveis ocorrências tanto antes, como depois
Na crise financeira nascida dos excessos de especulação nos Estados Unidos, quando se dá o Momento Minsky?
Paul McCulley, diretor-gerente da Pacific Investment Management Company (Pimco), que inventou a expressão quando da crise da dívida russa, em 1998, acha que foi em agosto de 2007. No dia 9, o medo paralisou os mercados de crédito no mundo, como se viu quando o BNP Paribas, terceiro maior banco francês, anunciou que suspendia o resgate de três fundos por que não conseguia avaliar o preço dos seus ativos.
Ao Valor, Lourenço disse que, "mais importante que datar com precisão o início da crise é lembrar que, para Minsky, esta é apenas a manifestação ruidosa de um silencioso (e muito antecedente) processo de fragilização financeira". Este seria um fenômeno recorrente na história da economia mundial, que se desenvolveria nas fases de expansão do ciclo de negócios que comumente antecede a crise. "É claro que vários elementos específicos podem ter transformado o que seria uma crise cíclica 'normal' em uma crise aparentemente mais pronunciada: a desregulamentação financeira (ativa e passiva), as inovações financeiras associadas à securitização das hipotecas, as políticas empregadas no tratamento da bolha financeira anterior, e assim por diante. Todos esses elementos constituem, por assim dizer, 'momentos Minsky'. Então, talvez fosse mais apropriado falar em um 'contexto' ou em um 'cenário Minsky', cuja construção, alicerçada nesses elementos, foi obra de anos."
No lado não keynesiano do pensamento econômico afirma-se que, ao contrário do que o modelo de Minsky pode sugerir, não há nada de errado com o capitalismo. O que não dá certo, e provoca situações de crise como a originária do fabuloso "boom" hipotecário americano, é a ingerência do governo, através, por exemplo, de políticas monetárias lenientes, como a praticada pelo Fed de Alan Greenspan.
Na verdade, explica Lourenço, "no campo liberal, à direita, acredita-se que as crises financeiras refletiriam comportamentos privados distorcidos pela expectativa de ação estatal". Ou seja, "a expectativa de que o Estado salvaria as empresas financeiras em caso de crise as levaria a agir de forma distorcida, anormalmente imprudente, descuidando da análise de riscos e se excedendo na concessão de crédito, na expectativa de obterem maiores lucros". A crise seria, afinal, uma manifestação da inconsistência de tais ações e, na ausência da expectativa de socorro do Estado, tais anomalias - e, portanto, a crise - não ocorreriam. "A solução definitiva para todas as crises financeiras estaria, então, na abstenção de ações de salvamento por parte do Estado, mesmo que ao custo de permitir que a presente crise avançasse ainda mais. Isso por que, em seu caráter supostamente salutar, a crise ensinaria aos agentes econômicos que eles deveriam seguir outro padrão de comportamento, compatível, em tese, com um crescimento econômico estável."
No campo heterodoxo, mais à esquerda, no qual Minsky se situa, a leitura é bem outra. A crise, "entre outros males econômicos", explica Lourenço, constituiria o resultado normal do funcionamento anárquico e inconsistente da economia capitalista liberal, que o mero funcionamento do sistema de preços não seria capaz de solucionar. As empresas não agiriam de forma imprudente por causa apenas da expectativa de ação salvadora do Estado. O próprio sucesso das fases de crescimento, com seus lucros polpudos, "pavimentaria o caminho para o desastre, com a excitação das expectativas e a opção por atitudes financeiras mais agressivas e arriscadas, que explicariam as loucuras financeiras que acompanham a formação das bolhas especulativas e desembocam em crises". Assim, "já que a causa da crise residiria na própria lógica do lucro privado, a abstenção de ação salvadora pelo Estado não seria remédio adequado. Poderia, ao contrário, desestabilizar ainda mais as expectativas e tornaria as crises financeiras mais virulentas e socialmente perversas - e, no limite, mataria o paciente."
Ao contrário de outros economistas de esquerda, lembra Lourenço, Minsky não vê a ação estatal como capaz de estabilizar definitivamente a economia capitalista (que seria inerentemente instável), já que a raiz da instabilidade repousaria na coração do sistema, a lógica do lucro. Qualquer ação estabilizadora teria eficácia temporária, apenas evitando o aprofundamento da crise. "Pior, carregaria em si a semente das crises financeiras futuras, na medida em que não somente sinalizaria um ambiente mais estável para os agentes privados - o qual tende por si só a ganhar mais instabilidade - mas também aumentaria a munição disponível para uso no cassino das apostas especulativas, soprando bolhas futuras, por assim dizer."
A única terapia com mais chance de sucesso - e mesmo assim também temporária - seria uma regulamentação financeira mais forte, que atuasse de forma preventiva, tentando evitar os exageros especulativos. Se essa intervenção der certo, crises financeiras mais severas poderão ser evitadas, tornando desnecessária a ação de salvação financeira direta pelo Estado. "Minsky aponta, porém, a possibilidade de a regulação tornar-se periodicamente insuficiente, pois sua própria existência tende a incentivar a busca, pelas instituições financeiras, de inovações capazes de contorná-la. O cenário, portanto, seria de uma incessante corrida entre a norma do regulador e inovação do regulado, na qual, sempre que o regulado conseguisse abrir muita vantagem, a estabilidade econômica seria posta em risco. Existe também a possibilidade de o regulado ser politicamente poderoso, a ponto de conseguir controlar o regulador."
Essa experiência de cooperação e confronto, ao mesmo tempo, vai entrando em nova fase nos Estados Unidos e outros países centrais, com ensaios de regulamentação mais restritiva. Começa aí o que poderá ser, então, um novo campo aberto à avaliação das qualidades empíricas das ideias de Hyman Minsky.

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