domingo, 2 de agosto de 2009

Trabalhadores chineses chacinam diretor

Protesto violento expõe desafios a reforma da siderurgia chinesa

Sky Canaves e James T. Areddy, The Wall Street Journal, de Tonghua, China
31/07/2009

Quando Chen Guojun assumiu o cargo de gerente geral da Tonghua Iron & Steel, deveria ter sido um passo à frente no esforço apoiado pelo governo chinês para consolidar a gigantesca indústria siderúrgica do país.

Mas, em vez disso, a chegada de Chen se tornou o trágico símbolo dos desafios enfrentados por Pequim enquanto tenta transformar o inchado cenário industrial que surgiu no país.

Na sexta-feira passada, depois de ficarem sabendo que a empresa privada que empregava Chen planejava assumir o controle da estatal Tonghua Iron & Steel, milhares de trabalhadores, preocupados com a possibilidade de perderem seus empregos, promoveram um protesto violento e interromperam a produção da usina, localizada num bairro coberto por cinzas nesta cidade no nordeste da China.

Enquanto se espalhavam os boatos de que o Grupo Jianlong, empregador de Chen, planejava demitir operários, um grupo deles encontrou o executivo de 41 anos e o espancou gravemente, afundando seu crânio. Depois os operários bloquearam as ruas próximas da fábrica e arremessaram tijolos para afastar a polícia e os paramédicos que tentavam alcançar Chen.

Amedrontadas, as autoridades locais anunciaram na televisão na noite de sexta-feira que os planos da Jianlong de comprar a Tonghua Iron & Steel foram cancelados. Quando os protestos acalmaram e as autoridades conseguiram chegar a Chen, cinco horas depois de ele ser atacado, ele, que era pai de dois filhos, já estava morto.

Na quarta-feira, enquanto a polícia continuava a procurar os assassinos de Chen, trabalhadores reuniam em montanhas de entulho o que sobrou da violência no alojamento em que ele morreu, varrendo cacos de vidro, pedaços de mobília e televisões quebradas. A porta do quarto em que Chen morreu estava fechada e a moldura danificada. Havia buracos em paredes e portas próximas, causados pelos socos dos operários enfurecidos.

A violência em Tonghua motivou um debate de intensidade incomum na mídia chinesa e entre especialistas no tratamento dos recursos humanos durante fusões. "Esse caso faz soar um alarme necessário", diz Li Xinchuang, vice-presidente do Instituto de Planejamento e Pesquisa da Indústria Metalúrgica da China, um centro de estudos do governo que ajudou a traçar a política oficial para a indústria siderúrgica. "Antes, (as reestruturações) se preocupavam apenas com os benefícios para os governos locais e as empresas, mas os interesses dos empregados deveriam receber muito mais atenção."

Mesmo antes, a China vinha enfrentando dificuldades para avançar em seu esforço para consolidar o setor. A indústria siderúrgica chinesa é de longe a maior do mundo, respondendo ano passado por cerca de 38% da produção mundial. Essa fatia só tem crescido, em meio à recessão mundial. A produção chinesa subiu 6% no primeiro semestre, enquanto a mundial encolheu 21% no mesmo período.

Mas a indústria chinesa do aço é fragmentada em mais de 800 produtores. A Shanghai Baosteel Group, há muito tempo a maior siderúrgica do país, respondeu por cerca de 5% das quase 500 milhões de toneladas de aço produzidas no país ano passado. Já na Coreia do Sul, a Pohang Iron & Steel Co., ou Posco, foi responsável por mais de 60% do aço produzido no país no ano passado.

As siderúrgicas chinesas têm quadros de pessoal gigantescos. A Shanghai Baosteel emprega mais de 108.000 pessoas. A japonesa Nippon Steel Corp., cuja produção é bem maior, emprega cerca de 17.000. O governo central acusou as pequenas siderúrgicas, controladas pelos governos provinciais, de terem controle ambiental fraco, de consumir eletricidade e outros recursos valiosos de modo pouco eficiente e de inundar o mercado com produtos de baixa qualidade.

Apesar da produção enorme, muitas siderúrgicas chinesas perdem dinheiro. Quase um quarto da capacidade está ociosa, segundo dados do governo, o que em parte reflete a velocidade com que as empresas têm ampliado a capacidade.

Para vender sua produção, a indústria siderúrgica local tem se voltado cada vez mais para a exportação - o que, por sua vez, está causando cada vez mais tensão com os parceiros comerciais mais importantes do país. As siderúrgicas americanas prestaram queixa em abril contra as concorrentes chinesas, afirmando que o aço importado era vendido abaixo do custo de produção. E, nesta semana, autoridades comerciais da União Europeia aprovaram punições preventivas contra as importações de tubos de aço da China. Pequim, enquanto isso, abriu sua própria investigação sobre um suposto dumping de aço americano e russo.

Pequim tem afirmado que seu objetivo é transformar a indústria para que haja apenas dez ou menos siderúrgicas competitivas em nível mundial. O governo já anunciou planos parecidos de consolidação para outros setores industriais assolados por problemas parecidos de excesso de capacidade, como montadoras de automóveis e indústrias químicas. Mas os esforços não têm avançado muito.

Os planos para a indústria siderúrgica têm enfrentado a resistência dos governos locais donos das empresas, que consideram as usinas uma fonte importante de receita tributária e empregos. "As questões mais profundas nas outras fusões que acompanhei foram políticas e tributárias, como quem manda no quê", diz Thomas Wrigglesworth, analista do Citigroup em Hong Kong. Quando as fusões realmente ocorrem, ele afirma que geralmente a produção não diminui.

A produção de aço é parte central da identidade chinesa. Mao Tsé-Tung fez das siderúrgicas o núcleo de seus esforços para tornar a China um gigante comunista. Deng Xiaoping, responsável por iniciar a presente era de liberalização econômica do país, criou a Shanghai Baosteel como parte de seu projeto para modernizar a economia do país. Hoje em dia ela é a quinta maior produtora de aço do mundo e tem clientes como a General Motors Corp. e o programa espacial chinês.

Com variados graus de sucesso, autoridades locais também criaram siderúrgicas. E empreendedores ousados começaram a comprá-las.

Embora violência como a de Tonghua seja incomum, especialistas em questões trabalhistas dizem que os trabalhadores estão ficando mais firmes quando sentem que seus interesses estão ameaçados. (Colaboraram Gao Sen, de Tonghua, e Ellen Zhu e Bai Lin, de Xangai)

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