quarta-feira, 11 de março de 2009

ARTIGO DE MARTIN WOLF

O G-20 e a demanda sustentada
Martin Wolf - 11/03/2009

O encontro de cúpula do grupo dos 20 países mais desenvolvidos (G-20) e países emergentes em Londres em 2 de abril de 2009 fracassará. Seus membros estão se recusando a cumprir o que Lawrence Summers, principal assessor econômico do presidente dos EUA Barack Obama, chama de "agenda universal da demanda". O senso comum é o inimigo. Lamentavelmente, ele está vencendo.

Nos EUA, o espírito de Andrew Mellon, secretário do Tesouro de Herbert Hoover, continua vivo. Seu conselho, lamentou Hoover, foi: "liquide a força de trabalho, liquide as ações, liquide os agricultores, liquide os ativos imobiliários". Sua opinião leviana, porém, não está inspirando a política dos EUA. O perigo não está em não fazer nada, mas em fazer muito pouco. Se esse tipo de timidez fracassar, os opositores dirão: essas políticas fracassaram. Isso agravará a confusão, dificultando e tornando ineficazes as tentativas de tomar atitudes decisivas mais adiante.

A coisa certa a fazer é mais do que suficiente. Sempre será possível retirar o incentivo em um ou dois anos. Será muito mais difícil tornar a ação eficaz se a depressão, tanto a econômica como a social, se firmar.

O que, então, é "mais do que suficiente"? Para responder a isso, precisamos reconhecer onde estamos. Primeiro, a recessão é global. Países fortemente dependentes de exportações como fonte de demanda, como Alemanha, Japão e Coreia do Sul, foram ainda mais duramente afetadas que os Estados Unidos ou o Reino Unido. Segundo, as forças subjacentes nessa recessão são poderosas e resistentes. Elas incluem: vastas perdas em riqueza (estimadas num estudo para o Banco de Desenvolvimento da Ásia em perto da produção mundial de um ano); enormes estoques de dívida privada em países deficitários; e uma pane no funcionamento normal do sistema financeiro.

O que deve ser feito então? A política monetária está em grande parte esgotada: mesmo as taxas de juros próximas de zero não conseguem incentivar tomadas de empréstimos, e o mundo não pode se desvalorizar para obter uma recuperação movida a exportação.

A política monetária pode - e deve - desbloquear os mercados de crédito, sustentar a base monetária e apoiar a política fiscal. O Federal Reserve já chegou a extremos nessas direções. Outros estão sendo obrigados, a contragosto, a segui-lo.

A política fiscal tem um grande papel a cumprir. Num artigo excelente, economistas do FMI descrevem o que é necessário como "oportuno, grande e duradouro, diversificado, contingente, coletivo e sustentável": oportuno, grande e duradouro, porque a recessão está aí, implacável e resistente; diversificado, porque a eficácia de cada medida é incerta; contingente, porque as surpresas certamente estão à espreita; coletivo, porque a eficácia de um incentivo aumentará à medida que mais países participarem; e sustentável, porque as reações adversas nos mercados de dívida devem ser contidas ("Fiscal Policy for the Crisis" [Política fiscal para a crise], dezembro de 2008).

Face a essas normas, os pacotes de incentivo são modestos de forma preocupante. De acordo com o FMI, até o incentivo dos EUA equivale a apenas um total de 4,8% do PIB. Além disso, como observa o FMI, estabilizadores automáticos são maiores na Europa do que nos EUA, devido a uma provisão previdenciária mais generosa ("The Size of the Fiscal Expansion" [O tamanho da expansão fiscal], fevereiro de 2009, www.imf.org). No conjunto, os EUA estão fazendo mais do que outros países grandes de alta renda: na comparação com o ano anterior à crise, a variação do balanço fiscal total está projetada em 5,7% do PIB nos EUA neste ano, contra 4,4% na Alemanha.

Não surpreende que os críticos condenam o recente pacote de incentivo dos EUA como sendo pequeno demais. O professor Martin Feldstein da Universidade Harvard, ex-presidente do conselho de assessores econômicos de Ronald Reagan, argumenta que "a economia dos EUA enfrenta um déficit de US$ 750 bilhões na demanda", em grande parte devido a uma queda de US$ 12 trilhões no patrimônio das famílias. O pacote dos EUA compensará, ele diz, apenas 40% da demanda perdida em 2009 e 2010. Se assim for, a recessão será profunda e prolongada. Feldstein conclui que "um segundo pacote de incentivo fiscal é provável". De fato, ele será essencial. Até então, porém, Obama já terá perdido a discussão e a sua autoridade. A vontade de fazer mais, porém, é escassa, nos EUA e alhures. A principal justificativa para a cautela é a preocupação em torno da sustentabilidade de longo prazo. Isso é um erro: a principal ameaça à sustentabilidade não é a crise, mas os gastos com benefícios sociais.

As tentativas de restringir os déficits fiscais enquanto o setor privado está promovendo cortes drásticos deverão fracassar, mesmo nos seus próprios termos. Por fim, a política fiscal não pode se manter independente do que o setor privado está fazendo - na verdade, agora testemunhamos altas gigantescas nos déficits fiscais, devido à prodigalidade passada nos setores privados, muitas vezes de outros países.

Lembremos, especialmente, que mesmo um aumento de 50 pontos percentuais no índice da dívida pública em relação ao PIB impõe um custo permanente sobre os contribuintes, de 1% a 1,5% do PIB num país capaz de tomar crédito a taxas reais de, digamos, 2% a 3%. Contanto que a credibilidade seja mantida, isto é gerenciável e, na verdade, menos preocupante do que o desperdício inerente em qualquer recessão prolongada.

Em suma, deter a depressão incipiente vem em primeiro lugar. Para que isso funcione, a ação fiscal precisa ser reversível de forma verossímil: os gastos temporários e os cortes de impostos dirigidos às categorias de maiores gastos serão mais eficazes e menos arriscados do que os amplos cortes de impostos.

Os chefes de governo do G-20 precisam decidir fazer tudo o que for necessário para sustentar a demanda nos seus países e nos vulneráveis países em desenvolvimento. Eles precisam abandonar o senso comum e, em vez disso, ousar ter sucesso.

Martin Wolf é colunista do "Financial Times".

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial